fev 9, 2026

O papel da Cadeia de Suprimentos na Redução de Impactos Ambientais da Mineração

Felipe Antunes
Felipe Antunes
Diretor de Meio Ambiente Metso

Nos últimos anos, venho observando uma mudança importante no tom das conversas com lideranças de mineração: sustentabilidade deixou de ser “projeto paralelo” para virar critério de compra, de financiamento e de reputação. Em outras palavras, performance ambiental virou performance de negócio.

Nesse contexto, ter uma Certificação Carbono Zero é sinal de maturidade da cadeia de suprimentos da mineração no Brasil. Para as mineradoras, ao comprar peças e componentes Carbono Zero, o cliente não está somente adquirindo um item com menor pegada: ele está importando emissões menores para dentro do seu inventário, melhorando seus indicadores de sustentabilidade e reduzindo riscos regulatórios no médio prazo. Em um setor que funciona sob pressão por disponibilidade de planta e previsibilidade de custos, isso conta muito.

 

Minha leitura: por que Escopos 1 e 2 viraram “o novo básico”

Se tem um ponto que eu vejo avançar rapidamente nos comitês executivos é a exigência de inventários de GEE completos e auditáveis, começando pelos Escopos 1 e 2. Pelas regras do GHG Protocol, Escopo 1 são emissões diretas (ex. combustão em caldeiras, processos térmicos, frota própria, etc.), e Escopo 2 são as indiretas pela energia adquirida (ex. eletricidade, vapor, aquecimento ou resfriamento) — sendo a base metodológica global para relatórios corporativos de emissões.

No Brasil, isso conversa diretamente com o arcabouço da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), instituída pela Lei nº 12.187/2009, que direciona ações de mitigação e adaptação e vem sendo atualizada para dialogar com metas mais ambiciosas, inclusive a nova NDC apresentada em nov/2024 (redução de 59% a 67% das emissões líquidas até 2035, vs. 2005).

Além disso, o Brasil regulamentou o mercado de carbono por meio da Lei nº 15.042, de 11/12/2024, criando o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) — um sinal claro de que métricas e metas deixarão cada vez mais de ser voluntárias.

Do lado das boas práticas corporativas, a SBTi (Science Based Targets initiative) é explícita: metas devem cobrir, obrigatoriamente, os Escopos 1 e 2, conforme o GHG Protocol. Para quem deseja estar em linha com 1,5°C, isso virou “ticket de entrada”. Em resumo, escopos 1 e 2 são a primeira fronteira de credibilidade. E fornecedores que entregam produtos e serviços com menor intensidade de carbono ajudam os clientes a reduzirem emissões “na veia” dos seus inventários corporativos.

 

O diferencial do Brasil no Escopo 2 (energia elétrica):

Vamos falar de dados e não apenas de uma opinião. Uma das grandes vantagens competitivas do Brasil — muitas vezes subestimada — é o baixo fator de emissão da energia elétrica. Em 2024, a matriz elétrica foi 88,2% renovável, com eólica + solar respondendo por 24% da geração total, segundo o Balanço Energético Nacional 2025 (ano-base 2024) do MME/EPE.

E isso reflete diretamente no fator de emissão oficial do MCTI: em abril/2025, por exemplo, o fator médio mensal foi de 28,9 kg CO₂/MWh (0,0289 tCO₂/MWh), após atualização metodológica que passou a incluir novas usinas renováveis na base de cálculo do SIN. Para inventários corporativos, esses fatores são a referência pública (“location-based”).

Isso importa porque o Escopo 2 depende diretamente da intensidade de carbono da rede elétrica. Em um país com eletricidade estruturalmente mais limpa, eletrificar processos e adquirir insumos fabricados com energia renovável tem impacto imediato nos resultados de emissões. Para o cliente de mineração, comprar uma peça Carbono Zero fabricada em um site com energia 100% renovável é menos Escopo 3 (produtos e serviços adquiridos) na conta — e mais resiliência regulatória.

Todas as iniciativas sustentáveis na Metso são importantes, porém, gostaria de enfatizar a certificação Carbono Zero das fábricas de borracha e fundição em Sorocaba.

 

Vamos falar do que ela promove:

1. Materialidade operacional: ter um balanço de zero emissões e energia renovável no contexto industrial é tirar carbono onde ele realmente está. Isso amplia a relevância da certificação para clientes com metas anuais de redução em Escopos 1 e 2. (Definições e escopos conforme GHG Protocol e WRI.)

2. Cadeia de suprimentos como alavanca: cada item “Carbono Zero” reduz o “teor de carbono” da cadeia de suprimentos. Em tempos de SBCE e maior escrutínio de investidores, comprar melhor faz parte do plano de descarbonização.

3. Alinhamento com a governança climática brasileira: a Política Nacional de Mudança de Clima está em atualização, e o governo já elevou a ambição climática via NDC. Fornecedores alinhados a esse movimento dão lastro às mineradoras nos seus próprios relatórios e auditorias.

 

LCS + Carbono Zero: estabilidade de planta e estabilidade de emissões

O que me chama a atenção no portfólio da Metso é o “encaixe” entre modelos de contrato orientados à performance (LCS) e a oferta de peças e componentes Carbono Zero. Na prática, é gestão de risco técnico + gestão de risco climático:

• Menos paradas não programadas (monitoramento condicional, equipe técnica e metas de disponibilidade).

• Menor intensidade de carbono por unidade produzida, ao combinar eficiência energética de equipamentos com insumos de menor pegada ambiental.

• Documentação rastreável, necessária para inventários, auditorias e relatórios (GHG Protocol / SBTi).

 

Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e fatores de emissão oficiais cada vez mais precisos, esse modelo acelera o caminho para metas de descarbonização em todo o setor mineral.

 

Existem próximos passos? Sim.

É possível impulsionar outras iniciativas para operações mais sustentáveis, como atualizar o inventário com os fatores de emissão do MCTI mais recentes para o SIN e reavaliar quais itens formam a base do Escopo 2. Também é importante revisar os contratos de fornecimento, priorizando fornecedores com energia renovável e selos/declarações de Carbono Zero verificáveis. Integrar metas globais da Metso à realidade de cada localidade e eletrificar processos críticos onde fizer sentido técnico e econômico – considerando equipamentos que oferecem tecnologia para tal, como exemplo as soluções Metso Plus.

Quando um fornecedor estratégico como a Metso coloca Carbono Zero no centro da fabricação de peças e componentes críticos, ele não está apenas “seguindo uma tendência”: está reduzindo o custo de compliance dos clientes, fortalecendo a resiliência da cadeia e destravando decisões técnicas com lastro. No Brasil, temos energia renovável e as políticas de regulação climática avançam. Esse movimento tem um efeito multiplicador em Escopos 1, 2 e 3, onde podemos contribuir para o setor. Certamente é possível unir produtividade industrial com responsabilidade ambiental.