Nos últimos anos, venho observando uma mudança importante no tom das conversas com lideranças de mineração: sustentabilidade deixou de ser “projeto paralelo” para virar critério de compra, de financiamento e de reputação. Em outras palavras, performance ambiental virou performance de negócio.
Nesse contexto, ter uma Certificação Carbono Zero é sinal de maturidade da cadeia de suprimentos da mineração no Brasil. Para as mineradoras, ao comprar peças e componentes Carbono Zero, o cliente não está somente adquirindo um item com menor pegada: ele está importando emissões menores para dentro do seu inventário, melhorando seus indicadores de sustentabilidade e reduzindo riscos regulatórios no médio prazo. Em um setor que funciona sob pressão por disponibilidade de planta e previsibilidade de custos, isso conta muito.
Minha leitura: por que Escopos 1 e 2 viraram “o novo básico”
Se tem um ponto que eu vejo avançar rapidamente nos comitês executivos é a exigência de inventários de GEE completos e auditáveis, começando pelos Escopos 1 e 2. Pelas regras do GHG Protocol, Escopo 1 são emissões diretas (ex. combustão em caldeiras, processos térmicos, frota própria, etc.), e Escopo 2 são as indiretas pela energia adquirida (ex. eletricidade, vapor, aquecimento ou resfriamento) — sendo a base metodológica global para relatórios corporativos de emissões.
No Brasil, isso conversa diretamente com o arcabouço da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), instituída pela Lei nº 12.187/2009, que direciona ações de mitigação e adaptação e vem sendo atualizada para dialogar com metas mais ambiciosas, inclusive a nova NDC apresentada em nov/2024 (redução de 59% a 67% das emissões líquidas até 2035, vs. 2005).
Além disso, o Brasil regulamentou o mercado de carbono por meio da Lei nº 15.042, de 11/12/2024, criando o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) — um sinal claro de que métricas e metas deixarão cada vez mais de ser voluntárias.
Do lado das boas práticas corporativas, a SBTi (Science Based Targets initiative) é explícita: metas devem cobrir, obrigatoriamente, os Escopos 1 e 2, conforme o GHG Protocol. Para quem deseja estar em linha com 1,5°C, isso virou “ticket de entrada”. Em resumo, escopos 1 e 2 são a primeira fronteira de credibilidade. E fornecedores que entregam produtos e serviços com menor intensidade de carbono ajudam os clientes a reduzirem emissões “na veia” dos seus inventários corporativos.
O diferencial do Brasil no Escopo 2 (energia elétrica):
Vamos falar de dados e não apenas de uma opinião. Uma das grandes vantagens competitivas do Brasil — muitas vezes subestimada — é o baixo fator de emissão da energia elétrica. Em 2024, a matriz elétrica foi 88,2% renovável, com eólica + solar respondendo por 24% da geração total, segundo o Balanço Energético Nacional 2025 (ano-base 2024) do MME/EPE.
E isso reflete diretamente no fator de emissão oficial do MCTI: em abril/2025, por exemplo, o fator médio mensal foi de 28,9 kg CO₂/MWh (0,0289 tCO₂/MWh), após atualização metodológica que passou a incluir novas usinas renováveis na base de cálculo do SIN. Para inventários corporativos, esses fatores são a referência pública (“location-based”).
Isso importa porque o Escopo 2 depende diretamente da intensidade de carbono da rede elétrica. Em um país com eletricidade estruturalmente mais limpa, eletrificar processos e adquirir insumos fabricados com energia renovável tem impacto imediato nos resultados de emissões. Para o cliente de mineração, comprar uma peça Carbono Zero fabricada em um site com energia 100% renovável é menos Escopo 3 (produtos e serviços adquiridos) na conta — e mais resiliência regulatória.
Todas as iniciativas sustentáveis na Metso são importantes, porém, gostaria de enfatizar a certificação Carbono Zero das fábricas de borracha e fundição em Sorocaba.
Vamos falar do que ela promove:
1. Materialidade operacional: ter um balanço de zero emissões e energia renovável no contexto industrial é tirar carbono onde ele realmente está. Isso amplia a relevância da certificação para clientes com metas anuais de redução em Escopos 1 e 2. (Definições e escopos conforme GHG Protocol e WRI.)
2. Cadeia de suprimentos como alavanca: cada item “Carbono Zero” reduz o “teor de carbono” da cadeia de suprimentos. Em tempos de SBCE e maior escrutínio de investidores, comprar melhor faz parte do plano de descarbonização.
3. Alinhamento com a governança climática brasileira: a Política Nacional de Mudança de Clima está em atualização, e o governo já elevou a ambição climática via NDC. Fornecedores alinhados a esse movimento dão lastro às mineradoras nos seus próprios relatórios e auditorias.
LCS + Carbono Zero: estabilidade de planta e estabilidade de emissões
O que me chama a atenção no portfólio da Metso é o “encaixe” entre modelos de contrato orientados à performance (LCS) e a oferta de peças e componentes Carbono Zero. Na prática, é gestão de risco técnico + gestão de risco climático:
• Menos paradas não programadas (monitoramento condicional, equipe técnica e metas de disponibilidade).
• Menor intensidade de carbono por unidade produzida, ao combinar eficiência energética de equipamentos com insumos de menor pegada ambiental.
• Documentação rastreável, necessária para inventários, auditorias e relatórios (GHG Protocol / SBTi).
Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e fatores de emissão oficiais cada vez mais precisos, esse modelo acelera o caminho para metas de descarbonização em todo o setor mineral.
Existem próximos passos? Sim.
É possível impulsionar outras iniciativas para operações mais sustentáveis, como atualizar o inventário com os fatores de emissão do MCTI mais recentes para o SIN e reavaliar quais itens formam a base do Escopo 2. Também é importante revisar os contratos de fornecimento, priorizando fornecedores com energia renovável e selos/declarações de Carbono Zero verificáveis. Integrar metas globais da Metso à realidade de cada localidade e eletrificar processos críticos onde fizer sentido técnico e econômico – considerando equipamentos que oferecem tecnologia para tal, como exemplo as soluções Metso Plus.
Quando um fornecedor estratégico como a Metso coloca Carbono Zero no centro da fabricação de peças e componentes críticos, ele não está apenas “seguindo uma tendência”: está reduzindo o custo de compliance dos clientes, fortalecendo a resiliência da cadeia e destravando decisões técnicas com lastro. No Brasil, temos energia renovável e as políticas de regulação climática avançam. Esse movimento tem um efeito multiplicador em Escopos 1, 2 e 3, onde podemos contribuir para o setor. Certamente é possível unir produtividade industrial com responsabilidade ambiental.