mar 12, 2026

Circularidade na mineração

Gustavo Greco
Gustavo Greco
Vice Presidente, Circular Business
Por muito tempo, circularidade na mineração foi tratada como um ideal importante, mas distante da rotina operacional. Isso mudou. Hoje, circularidade é um componente técnico, econômico e estratégico.
Fábrica de borracha Metso

Em 2024, o mercado global de soluções circulares na mineração foi estimado em US$ 12,9 bilhões pela Grandview Research, com projeção de alcançar US$ 25,3 bilhões até 2033, impulsionado por recuperação de metais, reprocessamento de rejeitos e maior rastreabilidade de materiais.

Essa mudança nasce de demandas reais: necessidade de eficiência, redução de custos e, sobretudo, mitigação de riscos ambientais, regulatórios e de suprimentos. Para a Metso, circularidade não começa no resíduo; ela começa no projeto das soluções, na modelagem dos contratos e nas decisões industriais ao longo de todo o ciclo de vida dos nossos produtos.

Quando falamos de circularidade na Metso, tratamos de quatro pilares práticos: metais, borracha, polímeros e modelos de negócio que conectam toda a cadeia.

 

Circularidade metálica: a sucata que volta a ser ativo

A indústria mineral sempre gerou grandes volumes de sucata metálica: revestimentos de moinhos, peças de desgaste, carcaças de bombas, mantos, entre outros. Tradicionalmente, esse material era vendido como sucata genérica, sem rastreabilidade e sem vínculo com sua origem.

O que mudou foi a compreensão do valor.

Hoje, adotamos modelos estruturados de retorno dessa sucata às nossas fundições. O reaproveitamento de metais acompanha tendências globais: cobre, alumínio, ouro e prata têm alto potencial de reciclagem e mantêm propriedades mesmo após vários ciclos de reaplicação.

Além de reduzir o consumo de matéria‑prima primária, esse reaproveitamento diminui emissões associadas à extração. A Agência Internacional de Energia (IEA) reforça que a reciclagem será essencial para suprir a demanda crescente por minerais críticos e reduzir a dependência de novas minas.

 

Borracha: da complexidade à engenharia aplicada

Se o metal já possui rotas consolidadas, a borracha historicamente representa maior complexidade. Revestimentos de moinhos, por exemplo, combinam borracha e metal em estruturas difíceis de separar.

Nos últimos anos, avançamos em processos mecânicos e térmicos de separação, além de estudos em pirólise (tecnologia capaz de recuperar óleo, gás e negro de carbono). Globalmente, o setor progride em soluções para transformar resíduos antes considerados inviáveis, alinhando-se às diretrizes internacionais de circularidade no setor mineral.

Nada disso é simples. São rotas que exigem escala, competitividade e segurança operacional, exatamente o ponto onde circularidade deixa de ser conceito e se torna engenharia aplicada.

 

Polímeros: do descarte ao retorno à cadeia

Polímeros de alto volume, como o polipropileno (PP) usado em placas de filtragem e peneiramento, eram tradicionalmente descartados. Hoje, com rotas estruturadas de coleta e reciclagem, transformamos esses materiais em matéria‑prima secundária.

Na América do Sul, já vemos resultados concretos: esses polímeros voltam ao mercado como pallets, mobiliário e componentes industriais. O impacto é duplo: reduzimos descarte e reintegramos ao modelo econômico um custo que já existia, o da destinação final.

O Brasil avança rápido. Em 2024, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) lançou projetos nacionais para integrar economia circular à mineração, incluindo reaproveitamento de resíduos e identificação de minerais recuperáveis em rejeitos.

 

Modelos de negócio: circularidade só funciona quando fecha a conta

Uma lição clara dessa jornada é que circularidade não avança apenas com tecnologia ou boa intenção. Ela depende de modelos econômicos sólidos. Isso envolve:

  • compreender custos de descarte,

  • definir mecanismos de crédito e compensação,

  • integrar sucata e resíduos aos contratos de serviços e aftermarket.

A circularidade só se sustenta quando gera vantagem competitiva para todos os envolvidos. Essa visão está alinhada às recomendações do Global Mining Guidelines Group (GMG), que reforça a importância de modelos colaborativos para escalar circularidade na mineração.

 

Brasil e América do Sul: terreno fértil para inovação

O Brasil ocupa um papel estratégico nesse movimento. Conta com base industrial robusta, proximidade das grandes operações de mineração e pressão regulatória crescente. Em 2024, o governo federal lançou a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), com diretrizes para reduzir rejeitos e ampliar o reaproveitamento de materiais.

O setor privado também avança. Em 2025, mineradoras como Vale, Gerdau e Itaminas registraram crescimento significativo no reaproveitamento de materiais. A Vale, por exemplo, produziu 12,7 milhões de toneladas por fontes circulares em 2024 e projeta alcançar 10% de sua produção via rotas circulares até 2030.

Esse ambiente regulatório, econômico e industrial cria condições ideais para que pilotos desenvolvidos no Brasil sejam escalados globalmente dentro da Metso.

 

Circularidade não é o futuro. É o presente.

A circularidade na mineração já é realidade. A diferença está entre empresas que a tratam como ação ambiental isolada e aquelas que a incorporam como pilar estratégico de operação, negócio e tecnologia.

Na Metso, circularidade gera valor ambiental, mas também operacional, financeiro e estratégico. Ela reduz riscos, amplia eficiência, fortalece a cadeia de suprimentos e prepara o setor mineral para responder às demandas da transição energética global.

Em uma operação no Brasil, por exemplo, identificamos mais de 3 mil toneladas anuais de sucata metálica dividida entre alto e baixo cromo, aço carbono, ferro‑manganês e outros metais. Hoje, esse volume é vendido ao mercado de sucata sem rastreabilidade, resultando em perda de valor e de visibilidade.

Ao analisar tecnicamente esse fluxo, verificamos que cerca de 95% desse material poderia retornar à nossa fundição em Sorocaba. Em vez de se perder no mercado genérico, pode ser reintegrado ao nosso processo produtivo com rastreabilidade, controle metalúrgico e alinhamento às metas de neutralidade de carbono.

Além de reduzir o consumo de matéria‑prima primária e gerar economias estimadas em 10% no custo de insumos metálicos, estruturamos esse modelo para permitir que parte do pagamento da sucata seja convertida em novos equipamentos e soluções Metso. Assim, circularidade deixa de ser apenas eficiência industrial e se torna também alavanca de negócios e fortalecimento da parceria de longo prazo com o cliente.

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